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'MÃES SIM, ALUNAS TAMBÉM'

Bruna, Elaine e Magda: mães adolescentes na escola com seus filhos
'MÃES SIM, ALUNAS TAMBÉM'
REPORTAGEM - GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA
Texto e fotos: Viviane Teixeira Chaves

Quatorze anos e uma descoberta: grávida de dois meses. Bruna Laís da Silva Monteiro passou por esse drama há seis anos. Ainda cursava a 8ª série, quando descobriu que daria luz a uma criança. Atordoada com a novidade, Bruna pensou em fazer um aborto, mas como descobriu um pouco tarde, o medo de que o filho nascesse com alguma deficiência, foi maior. Diante disso, a adolescente tomou a seguinte decisão: a de assumir a maternidade.
Ultimamente, é comum encontrar na rua, no bairro, na faculdade, na escola ou no trabalho, pelo menos uma menina com menos de 21 anos que já tenha se tornado mãe ou que esteja grávida. Por causa disso, muitas jovens se veem obrigadas a deixar os estudos de lado para cuidar dos filhos. Isso acontece porque, dificilmente, encontra-se uma pessoa confiável para ficar com a criança.
PRECOCIDADE – A gravidez precoce é considerada um caso de saúde pública no Brasil. Em 2002 e 2003, foi feito um último levantamento sobre o tema pelo Sistema de Informações de Nascidos Vivos (Sinasc), do Ministério da Saúde. Foi registrado um total de 3.059.402 e 3.038.251 nascidos vivos, respectivamente. Destes, 693.101 (22,7%) e 673.045 (22,2%) eram filhos de mães adolescentes, entre 10 a 19 anos. Em cada um desses anos, 0,9% dos nascidos vivos foram de mães entre 10 e 14 anos. Já em 2002, foi verificado que 21,8% dos nascidos vivos eram de mães entre 15 e 19 anos. Em 2003, 21,3% dos nascidos vivos foram de mães nessa faixa etária.
A Região Norte apresentou o maior índice de gravidez na adolescência (10-19 anos), com 29,6% e 29,1%. Em segundo, a Região Centro-Oeste, com 24,1% e 23,3%. Destaca-se também a Região Sudeste com a menor proporção de mães no mesmo grupo de idade, de 19,2% e 18,3% nos anos de 2002 e 2003, respectivamente.

Tendo em vista esse cenário e consciente da importância de se concluir o ensino médio, a Instituto Normal Estadual Carmela Dutra, localizada na Avenida Edgard Romero, em Madureira, criou o “Carmelinha”, escola que vai até a 4ª série e que fica nos fundos do colégio e é aberta para os filhos das alunas e funcionárias do local.

– O Carmelinha foi criado pelo antigo diretor, o professor Geraldo Ribeiro. E eu dou total apoio – afirma, com entusiasmo, o diretor-geral da escola, professor Marcelo da Silva Lisboa.

O Carmelinha foi construído há nove anos. Começou como uma creche, chamada Joaninha, onde apenas os bebês das alunas eram atendidos. O sucesso do projeto fez a escola investir mais. De acordo com a orientadora educacional do Carmelinha, pedagoga Flávia da Conceição Domingos Dias, o número de alunos totaliza 417.

– A procura fez a escola aumentar. Hoje, o número de alunas que têm filhos matriculados aqui se aproxima a 20. Considero essa iniciativa um exemplo para outras escolas. É uma oportunidade para que essas adolescentes concluam o normal e possam, futuramente, oferecer uma vida melhor aos seus filhos. Além disso, a escola só tem a ganhar. O Carmelinha, este ano, tornou-se um colégio de aplicação. Cada aula é assistida por duas normalistas. É uma espécie de estágio para que as meninas tenham contato com a prática – explica Flávia.

Elaine, Bruna e Magda aprovaram a iniciativa da creche Carmelinha

Bruna Laís, hoje com 19 anos, é uma das alunas normalistas do Carmela Dutra. Seu filho, Alexandre Monteiro Cavalcante, 4 anos, é um dos estudantes do Carmelinha. A jovem garante que ter um lugar para deixar o filho, é um presente. A mãe precoce se sente segura em saber que Alexandre está no mesmo lugar que ela. Outro motivo que não pode ser descartado é a ótima oportunidade para dar prosseguimento aos estudos, fator que angustiou a menina ao receber o resultado do exame de gravidez aos 14 anos de idade.
– Eu fiquei sem chão. Fiz o teste de farmácia e, quando vi que era positivo, me desesperei. Foi péssimo. Não sabia como contar para os meus pais. Pensei em como seria o meu futuro a partir daquele instante e acho que foi por isso que pensei primeiro em abortar. Minha mãe ficou duas semanas sem falar comigo. A família toda ficou chocada. E eu, com muita vergonha disso tudo, é claro – recorda.
Outra normalista grata à iniciativa do Carmela Dutra é Elaine Regina Moledo Pinto, 21. A aluna engravidou aos 17 anos. Já se passaram quatro, mas a lembrança do constrangimento de ter engravidado nova ainda é viva em sua memória. Elaine lembra o quanto foi criticada pela família e amigos. Porém, segundo ela, o medo de ter o futuro prejudicado e não ter nada de bom para oferecer à filha a assustou muito mais.
– O clima lá em casa foi só decepção. Não teve uma pessoa da minha família que não pensasse: “a Elaine, tão inteligente, grávida?” Quando minha filha nasceu, tive que interromper meus estudos, porque minha mãe não ficava com a menina. O único apoio que minha mãe me deu foi financeiro. Tive medo, mas fui obrigada a abrir mão da escola. Alguém tinha que cuidar da minha criança, – desabafa Elaine, mãe de Beatriz Pinto Corrêa, 3.
Apesar do susto, Elaine não pensou em aborto. Ela tinha consciência do que tinha feito e, desde o momento que soube da notícia, assumiu a maternidade. Segundo Elaine, ela só voltou a estudar porque conseguiu matricular a filha no Carmelinha. A ex-sogra ajudava a cuidar da menina, mas não era sempre que a avó podia. Então, optou por esperar até que Beatriz tivesse idade suficiente para ingressar no Jardim I.

– Estudamos no mesmo turno. Isso facilita muito. Uma vez ouvi dizer que a iniciativa do Carmela Dutra incentivava a gravidez. Isso é uma tremenda ignorância. É totalmente o contrário, é um passo para que o jovem não pare de estudar. Eu sou um ótimo exemplo. Se o Carmela não possuísse esse projeto, seria muito provável que eu ainda estivesse em casa, cuidando da minha filha ou com problemas sérios para conciliar os horários dela com os meus. Aqui, também, é uma excelente escola. Vejo minha filha aprender e me sinto segura, porque estou perto – revela.

A situação de Bruna não foi diferente de Elaine. Voltar a estudar depois de ter se tornado mãe, é quase sempre um problema. Bruna acredita que se não tivesse encontrado o Carmelinha, ela teria parado de estudar.

– Para retornar aos estudos, primeiro teria que achar alguém de confiança para ficar com o Alexandre, o que já seria um problema. Com isso, a minha prioridade passaria ser de estudar para trabalhar – afirma.


Aqueles que pensam que não ter com quem deixar os pequenos é um problema exclusivo das adolescentes, enganado. Magda Iorá Marques, 27, se casou antes de concluir o ensino médio. Mas a esperança de voltar a estudar permaneceu viva dentro dela. Hoje, mãe de Anthony Marques Batista, 3, Magda elogia a idéia do Carmelinha e se diz ser uma das privilegiadas por causa do local.

– Depois que meu filho nasceu, fiquei dois anos sem estudar justamente porque não havia ninguém para tomar conta dele. Consegui uma vaga para ele aqui e o matriculei. Durante todo o ano viemos juntos para escola, o que é muito legal. Mesmo que eu tivesse que pagar uma pessoa para ficar com ele, eu não ficaria tão tranquila. Meu marido e eu ficamos sossegados – explica Magda.

CRIANÇAS GOSTAM DA ESCOLINHA

'MÃES SIM, ALUNAS TAMBÉM'
REPORTAGEM - GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA
Texto: Viviane Teixeira Chaves

Está comprovado que as ‘alunas-mães’ aprovaram o projeto do Carmelinha. Para elas, a iniciativa é nota 10. Porém, não são apenas as mamães que estão satisfeitas com a escolinha. As crianças também. Beatriz, filha de Elaine, adora ir à escola com a mãe, voltar da escola e vê-la nos intervalos das aulas.
– Gosto muito daqui, da merenda e da bola. Quando crescer, quero ser professora que nem a tia Luzia – diz Beatriz, do Jardim I, se referindo a sua professora de classe.
Alexandre é outro que considera ir para escola uma festa. O menino, amigo de Beatriz, é uma das crianças mais agitadas da classe, segundo a professora Luzia. Xande, como é chamando pela mãe, Bruna, se empolga ao falar do Carmelinha.
– Gosto de tudo. Gosto de vir com a minha mãe para cá – revela Alexandre, também aluno do Jardim I.
Bruna, Elaine e Magda se consideram pessoas premiadas por terem o privilégio de continuarem a estudar, mesmo depois de serem mães. Apesar de muito novas, Bruna e Elaine valorizam a oportunidade e torcem para que projetos como esse cheguem a outras instituições.
Servente do Carmela Dutra, Maria da Glória Pereira Ferreira trabalha na casa há 23 anos e apóia a iniciativa da escola.
– Sou casada há 37 anos. Não tive filhos biológicos, mas considero todos eles os meus filhos. Toda criança precisa ir à escola e todo adolescente também. Aqui, isso é possível, diz a funcionária.

POR QUE NÃO SE PREVINIR?

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REPORTAGEM - GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA
Texto: Viviane Teixeira Chaves
Uma pergunta e apenas uma resposta. Isso foi o que aconteceu numa enquete realizada para saber o porquê que as adolescentes não usaram preservativo antes terem relações sexuais. A resposta foi unânime e surpreendente: “Pensei que nunca fosse acontecer comigo”.
Thaysa de Lima Azevedo, 17, engravidou aos 15. A jovem revela que descobrir que estava grávida tão nova não estava em seus planos, da mesma forma que aconteceu com Bruna e Elaine.
– Logo que descobri pensei em fazer um aborto. Também passei pelo constrangimento de ter que enfrentar a família para contar o que havia acontecido. Além disso, sofri com o preconceito de algumas meninas da escola que se afastaram de mim, após a notícia da minha gravidez ter se espalhado. Minha mãe, no início, apoiou a minha decisão de abortar, mas depois da primeira ultrassonografia que eu fiz, me apaixonei pela ideia de ser mãe e ela se conformou em ser avó. Não usei preservativo, porque nunca pensei que fosse acontecer comigo – lembra Thaysa, hoje, mãe de Nicoly Cristine de Azevedo, 9 meses.
Elaine é outra que afirma não ter imaginado que um dia poderia ser mãe antes do tempo. A menina conta que só descobriu a gravidez porque passou muito mal e, que, por causa disso, chegou a ficar cerca de uma semana internada no hospital.
– Pode ser idiota, mas, também, pensei que nunca engravidaria. Soube que estava grávida ao ir ao médico me consultar, depois de passar muito mal. Eu nem imaginava o que era. Lá, eles fizeram uns exames e foi constatado que eu estava grávida de quase um mês. O médico me disse que o motivo por ter passado tão mal, só é justificado se for levado em consideração que o meu organismo ainda não estava preparado para gerar um bebê – explica a normalista.
A doutora em ginecologia, mastologia e obstetrícia, Graciara de Cássia Fardin concorda com o profissional que atendeu Elaine e afirma que isso é mais comum do que se imagina.
– Paciente grávida muito jovem sempre é preocupante. Tenho visto criança de doze anos gestante. Isso é um problema grave. A adolescente grávida fica exposta a uma série de doenças, como hipertensão e diabetes. Em alguns casos, a paciente não tem nem a estrutura óssea totalmente formada, o que é muito perigoso durante a formação do bebê no ventre da mãe e no momento do parto – explica a doutora, que atenta para a importância dos métodos contraceptivos.
De acordo com a ginecologista, os meios de contracepção vão além de evitar uma gravidez indesejada. As doenças sexualmente transmissíveis (DST) estão em alta e isso torna a camisinha indispensável.
– Mesmo que a jovem tome pílula anticoncepcional, a camisinha sempre deve ser usada. O maior risco que o ser humano corre em não usar preservativo não é engravidar, mas contrair o vírus do HIV. É triste admitir, mas poucos têm se importado com isso – adverte.
Glaucio Dirê é professor da disciplina Bases Biológicas do Comportamento do curso de Psicologia, do campus Ilha do Governador da Universidade Estácio de Sá. Glaucio, formado em Biologia, acredita que gestações precoces são consequencias únicas da falta de informação.
– A informação devia ser transmitida a partir da 5ª série. O ensino fundamental devia se responsabilizar por isso. É justamente nessa fase que a Biologia trata de sistema reprodutor e sexualidade. Esse seria um ótimo gancho para que o assunto fosse discutido entre os adolescentes com naturalidade. Palestras sobre os métodos contraceptivos seriam ainda melhor – orienta Glaucio.

GRAVIDEZ PRECOCE, POBREZA E VIOLÊNCIA

'MÃES SIM, ALUNAS TAMBÉM'
REPORTAGEM - GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA
Texto: Viviane Teixeira Chaves
Pode parecer exagero, mas especialistas consideram a gravidez precoce uma forte aliada ao sustento da pobreza e aumento da violência. Isso porque as considerações feitas estão relacionadas com o desejo das jovens engravidarem em busca de uma mudança de vida. Enquanto algumas temem ser mãe antes do tempo certo, outras regozijam ao perceber que o resultado do teste de farmácia deu positivo.
O professor Glaucio acredita que a gravidez precoce é um mal para a sociedade. Segundo ele, o número crescente de crianças abandonadas e marginalizadas é um dos exemplos que prova que a gravidez precoce está diretamente ligada à pobreza e à violência. Outro profissional que acredita nisso é a doutora Graciara.
– Tenho uma paciente que trabalha na área de saúde. Ela me disse que crianças vão até lá em busca de anticoncepcional. Um caso que ela ficou impressionada foi o de uma menina que pediu uma pílula a ela, porém nunca tinha tido a primeira menstruação. Além da questão médica, a gravidez precoce envolve o fator psicológico e social. Se uma adolescente não tem uma educação adequada, como irá educar uma criança? Isso é muito sério, explica Graciara.