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MORADOR DA COMUNIDADE ESCREVE CRÔNICA SOBRE A ZONA NORTE

CRÔNICA
ZONA NORTE
Por Flávio Araújo, jornalista (morador de Campinho)

Calçadas irregulares e canteiros sobre os muros. Um santo na fachada e cadeiras nos portões. Crianças em alarido corre-corre, pipas e balões convivem como cães e gatos. A prima namoradeira e o irmão galanteador. Filhos indesejados e queridos como nunca. Sopro de vento que faz curva em um canto de muro, sobe redemoinho de poeira, folhas, rabiolas, fitas cassete e santinhos de políticos. Estes também passam por ali em pé-de-vento.
Churrasco improvisado, gritos de gol, cerveja gelada, brigas, vômitos, choros e sorrisos. Promessas não cumpridas. Respeito a São Jorge. Lua ilumina a mangueira no quintal. Formigas, muitas e variadas formigas. Marimbondos e abelhas de padaria que fazem mel de açúcar União. Um café ao despertar e uma pinga para adormecer.

Cajá, pitanga, carambola, jambo, banana, abiu e maracujá. Galinhas, ovos, alface, couve e bertalha. Angu à mesa. Festa junina com casamento caipira, prisão e fogueira. Carnaval de carrascos e Clóvis. Pedras portuguesas pintadas a guache. Dezenas de gaiolas de pássaros para cuidar. Cacos de vidro sobre os muros, restos de obras, pneu furado, estilingue, ratoeira e caminhos de caracóis.

Berimbau e cuia de chimarrão são enfeites na sala. Tapetes por toda a casa. Cortinas que nos permitem acordar tarde e escondem nosso amor dos curiosos. Fofoqueiras dão plantões médicos e policiais. Paralelepípedos. Viados, piranhas e cornos. Xerifes e medrosos.

“O Zé conserta”. Televisão, rádio, carro, geladeira, torção de tornozelo, cabelo ruim, sapato furado, tênis descolado, joanete, unheiro e reza braba. “Zé conserta!” Cobreiro se reza com algodão embebido em azeite ou galho de arruda. Depois, incendeia-se o objeto para queimar o mal, herança da Inquisição.

Time de botão se identifica cortando o nome dos jogadores no jornal, colando-se na durex, cortando rentinho e colando no craque. Falta o goleiro? Não tem problema. Enche-se uma caixa de fósforos com parafusos e porcas, embala-se várias vezes em papel ofício, cola-se tudo e pronto: tem-se um goleiraço.

No fundo do quintal há ervas para quase todos os males. Só não se cura mal de amor. Já comeu rolinha, capturada na arapuca de peneira? E bunda de saúva? E rã, pescada na vala? Discoteca com pastilhas e pisca-pisca de árvore de Natal. Fotos em branco-e-preto, TV idem. Novela é religião, depois da novena. A santa passa uma semana na casa de cada família e os meninos acham que Deus é meio surdo, pois o terço é muito repetitivo.

Corações plenos, mesa farta e repleta de bocas esfomeadas. Vizinhos, carteado. Horóscopo, quiromancia e búzios. Costureiras prestam serviço ao padre e ao pai-de-santo. Bordam a estola e a capa de Exu. Velas, despachos, bêbados irremediáveis. Telha quebrada, goteira, ladeira. Linha de trem, que passa e sacode a quadra da escola de samba. Carimbó, afoxé e umbanda. Rouxinol que ainda canta na varanda.